O HOMEM, SENHOR DE SUA ETERNIDADE

 

Deus esclarece o homem sobre sua escolha, Ele lhe mostra o fim horroroso, infernal, da vida mundana, culpada. Ele lhe revela a grandeza, a magnificência, a felicidade eterna dos Santos no Céu. Tendo feito isto, Deus lhe diz: escolhei. Aí se detém o poder de Deus. Aí começa também o poder do homem. (Abuso da liberdade!) Quantos há que escolhem o caminho largo! a lei das paixões, o demônio por senhor, a eternidade infeliz por termo. Vós, escolhei bem, da escolha depende a vida, depende a eternidade.

Jovens, escolhei bem na primeira hora: Ensina a criança no caminho que deve andar, e mesmo quando for velho não se desviará dele [Pr 22,6]. Adultos, na 9ª hora, escolhei bem, se não o fizestes ainda. Ousarei dizer aos idosos, na 11ª hora do dia, escolhei bem, ainda é tempo para isto.

A eternidade é uma balança: num dos pratos, está o Evangelho, está Jesus Cristo, está a eternidade feliz; no outro, estão os prazeres da vida, o reino das paixões, aliás o que concerne à outra vida está escondido. Deus o revela, é o inferno infeliz. Escolhei. Colocai a mão num dos pratos desta balança eterna. Fazei pender o de Jesus Cristo.

2º O homem é senhor de sua eternidade, porque ele é senhor dos meios que lha asseguram.

No mundo, encontra-se elevadas inteligências que fazem sublimes invenções, mas frequentemente impossíveis na execução, porque a subtilidade de nosso espírito é superior à habilidade de nosso corpo. No trabalho de nossa salvação eterna, não acontece o mesmo. O homem pode tudo o que ele quer, tudo o que ele concebe, os trabalhos mais penosos, a vida mais austera, os maiores sacrifícios, as vitórias mais difíceis, tudo se torna possível, fácil, amável àquele que disse com toda a energia de sua vontade cristã: quero salvar minha alma. Quereis uma prova irrecusável disto: vede a vida dos Santos, o que eles fizeram, o que eles fazem todos os dias; lede a história dos Confessores da fé, dos 22 milhões de mártires: aos olhos da humanidade, é inacreditável, inexplicável; é que sua força vinha de sua escolha, de seu estado de salvação. Todos dizem e têm o direito de dizer com São Paulo: Tudo posso naquele que me fortalece [Fl 4,13].

É que Jesus Cristo prometeu Sua Graça àquele que O seguir, e com a graça de Deus, tudo é fácil. E eis porque, diz o Salvador, tudo é possível àquele que crê e que quer: Tudo é possível àquele que crê [Mt 9,23]. Todo homem tem, portanto, à sua disposição a graça da salvação.

Vós a tendes, meus irmãos, e muito abundante. Jesus Cristo vos dá tudo o que Ele tem de mais precioso e vós herdais da graça de todos os Santos que viveram antes de vós. Dizei-vos, portanto, com Santo Agostinho: E eu não poderei o que podem estes homens, estas mulheres?

Mas escuto uma objeção. É uma alma já há muito tempo escrava de suas paixões e que não se sente com coragem para vencê-las, e desesperada, se entrega a elas e responde somente com estas palavras: Não posso.

Mas como eles puderam, estes grandes pecadores que se tornaram grandes Santos? Estes pagãos voluptuosos que se tornaram castos como os Anjos, Agostinho… a pecadora Thaïs, Maria Egipciana,…? Tinham a mesma natureza, as mesmas dificuldades, maiores ainda.

É que eles quiseram, e o quiseram generosamente. E vós não o quisestes ainda verdadeiramente, somente o pensastes; há apenas, se houver, uma vontade imperfeita e fugaz. Mas suponhamos que vós o quisestes. O que fizestes? Lançastes mão de vossas forças cristãs? Vós vos erguestes? Começastes a rezar, a refletir? Não, não o fizestes. Nada resiste a estes meios de salvação. E estes meios estão em vosso poder. Ninguém pode vo-los tirar, paralisar a sua eficácia divina. Aquele, portanto, que se salva, só se salva porque o quis, porque foi fiel às graças de Deus. A este Jesus Cristo dirá: Muito bem, servo bom [Mt 25,21]; ao servo infiel: Eis que estás destruído, Israel [Os 13,9].

Para obter êxito numa questão de fortuna, e associar a si homens de capacidade e de dedicação, é preciso mostrar não somente a possibilidade do sucesso, mas também sua facilidade, sua atualidade. Assim começam todas as empresas humanas. Parece que logo tudo estará na perfeição. Mas viu-se somente o belo, o agradável. Chegarão logo as dificuldades, as penas, as decepções.

No trabalho da salvação, Deus segue uma marcha contrária: Ele começa por mostrar os sacrifícios, as dificuldades, as penas assustadoras. Assim, Ele nos representa esta vereda da salvação… Sua linguagem é dura, Ele só fala de perseguições, de humilhações, de morte. Eis o que detém tantos homens, eles têm medo. Dizem: Dura é esta palavra [Jo 6,61]. Por que Jesus Cristo coloca a salvação em primeiro lugar nesta condição? É porque Ele quer homens de coração, homens a toda prova, como um general quer soldados heróis. Mas não vos deixeis amedrontar tão depressa. Dai o primeiro passo e logo ficareis admirados da doçura desta vida.

Notai que Jesus Cristo disse: Entrai pela porta estreita [Mt 7,13], mas depois, o caminho se alarga, torna-se belo, encantador, à medida que nos aproximamos do Céu. Por isso Jesus Cristo acrescenta: Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de Coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve [Mt 11,29-30], e vós experimentareis a felicidade de Seu Serviço, a alegria dos Santos, que é tão grande que eles pedem ao Senhor que a tempere. Não vereis somente a cruz, mas sentireis sua unção, diz São Bernardo. Aliás, é o amor que causa a felicidade. E o amor suaviza o sofrimento, torna-o doce e amável, diz Santo Agostinho: Onde se ama, não há pena. Assim não vos deixeis assustar, por maiores que sejam as dificuldades, vós tendes em mãos os meios para triunfar delas.

3º Nós somos senhores de nossa eternidade porque somos senhores da perfeição de nosso fim.

No mundo, todos aspiram aos primeiros cargos, às primeiras dignidades, mas nem todos os conseguem; a maior parte não pode atingi-los.

No trabalho da eternidade feliz, todos podem aspirar ao primeiro lugar, à primeira glória celeste. Pois no Céu existem diversos graus de glória, segundo a diversidade dos méritos na terra. São Paulo viu até o 3º Céu. Existem 9 coros de Anjos. Existem tantos graus de glória quantos Santos existem.

Está ao poder de cada um não somente adquirir o Céu, mas a sublimidade dos Céus. E este privilégio não está ligado a algumas vocações especiais, a sublimes dignidades na religião, não, mas à santidade, ao perfeito amor de Deus. E cada vocação, cada idade, cada estado de vida encerra o mérito e a virtude da mais alta santidade. Tudo depende de nós.

Ah! Se soubéssemos aproveitar dos meios de santidade que Deus nos oferece, se realmente quiséssemos nos enriquecer para a vida eterna, que bela vida, que preciosa morte, que magnífica eternidade!

 


COMO DEVEIS TRABALHAR PARA A ETERNIDADE?

 

Por vós mesmos. É um negócio pessoal. Ninguém pode vos substituir. Vossos parentes, vossos amigos podem trabalhar em vossa fortuna temporal, quanto à fortuna eterna, está entregue ao suor de vosso rosto. É um negócio espiritual: Fazei-as render [Lc 19,13]. Sois vós que deveis fazer frutificar. É o cultivo do campo do Pai de família, sois vós que sois chamados por Ele a cultivá-lo e não um outro. É um combate singular (outrora, os cavaleiros enviavam seus escudeiros). Aqui cada um paga por sua pessoa: um atleta não recebe a coroa se não lutou segundo as regras [2Tm 2,5].

É um trabalho de tal forma pessoal que o próprio Deus não pode vos salvar sem vós. É Santo Agostinho quem o diz: Aquele que te fez sem ti, não te salvará sem ti. Não descanseis, portanto, sobre os méritos e as virtudes de vossos parentes e de vossos amigos.

É preciso trabalhar em vossa salvação antes de tudo. A eternidade deve passar antes do tempo, o Céu antes da terra, a salvação da alma antes do cuidado do corpo. Infelizmente! A maior parte dos homens começam pelo corpo, pela terra, eles têm sempre o tempo, e, no entanto, Jesus Cristo disse: Buscai primeiro o Reino de Deus [Mt 6,33].

É preciso trabalhar em vossa salvação em tudo. Centro em torno do qual tudo deve convergir.

– Tudo o que é feito fora da salvação está perdido. Infelizmente! Quantos trabalhos, quantos sacrifícios naturais perdidos.

– Tudo o que é feito fora da salvação nos causa perdas inestimáveis, irreparáveis; passos fora do caminho [Santo Agostinho]. Os Santos: O que isto me traz para a eternidade? Como o negociante, o artesão, o ambicioso diriam: O que isto me traz para o lucro, para a felicidade?

Pelo sacrifício de tudo. Deve-se estar na disposição de tudo sacrificar pela sua salvação. Vede os Santos confessores: bens, dignidades, saúde, vida.

Vende-se tudo para comprar o Céu, porque ganhando o Céu, tudo está ganho, mas perdendo o Céu, tudo está perdido. No tempo de uma tempestade, quando o navio naufraga sob o peso de sua carga, lança-se tudo no mar, trata-se da vida.

Jesus Cristo coloca algumas vezes a salvação a este preço. Um Santo não hesita, ele sabe se privar de tudo, ele sabe sofrer, ele sabe morrer. É a última vitória da salvação, é o começo do triunfo. Ele salvou sua alma.

(Anotações autógrafas de São Pedro Julião Eymard – Obras Completas / Volume IX)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *