OS MOTIVOS DA CONVERSÃO PELA CONFIANÇA

Dir-se-ia que este Deus tão Bom Se compraz na ofensa, tamanho é Seu amor pelo pecador. Acrescentemos, no entanto, pelo pecador arrependido. Ele só Se sente bem em fazer os outros felizes, eis porque, o arrependimento e o perdão caminham juntos.

Quando este Bom Pai vê um filho rebelde humilhar-se, arrepender-se, então Ele esquece que é Deus e Juiz, Ele esquece que deve puni-lo e abre-lhe o seio de Sua Misericórdia.

Insultam-NO em face, traem-NO como Judas? Em lugar de Se vingar, Ele honrará ainda o culpado com o título de amigo para fazê-lo saber que Ele ainda o ama. Ele o olhará ainda, como Ele olhou para Pedro. E feliz dele, se seus olhares se encontram com os de Jesus, como os de Pedro. O coração será logo ganho.

É, portanto, da Bondade do Salvador para com os pecadores que venho falar-vos.

Venho avisar-vos em Seu Nome que é preciso voltar a Ele decididamente. O motivo que deve vos levar a isso é Seu extremo Amor por vós.

Se desprezais esse Amor, tomai cuidado, o que tenho a dizer, ao invés de salvar-vos, acabará de vos perder, terminando de vos cegar. Mas, esperanças mais doces me tranqüilizam e ouso contar com vossos corações como com vossa atenção. Comecemos.

Enquanto o homem está sobre a terra e ainda respira, ele pode pedir e obter o perdão de seus pecados, mesmo que ele fosse o mais criminoso dos homens, mais culpado do que os demônios, e por quê?

Porque é impossível que tenhamos tanta malícia quanta bondade tem Jesus Cristo. Nossos pecados podem ser contados, mas a misericórdia de Deus é infinita.

Escutai a Palavra infalível (Ez 33): O ímpio devolvendo o penhor recebido, restituindo o furtado e observando os preceitos que dão vida, não praticando a iniqüidade, certamente viverá, não morrerá. Todos os pecados que cometeu já não serão lembrados: ele praticou o direito e a justiça, logo, viverá [Ez 33,15-16].

Se um ímpio faz penitência, diz o Senhor, Eu esquecerei sua impiedade. Não verei mais senão meu filho na pessoa desse pecador. Ora, aqui, não se trata de tibieza, de negligência, tudo isso são faltas, é verdade, mas existem outras mais graves. A palavra ímpio as encerra todas: o injusto, o obsceno, o sacrílego, o homicida, o blasfemador, o herege, o incrédulo, numa palavra: todos os vícios possíveis.

Qual a condição pela qual o Senhor oferece o perdão ao ímpio? Exige Ele súplicas reiteradas, imensas esmolas, penas e macerações que assustam, terrores, lágrimas, o sacrifício de sua vida?

Não, meus irmãos, a única condição é a boa vontade, a sinceridade e a verdade do arrependimento e, por conseguinte, a vontade generosa de se corrigir e de levar uma vida nova. Eis o que se examina no Tribunal de Deus, eis o que o faz a Seus olhos ganhar Seu Coração e apaziguar Sua cólera.

Mas, dir-se-á, não pode acontecer que, depois de ter adiado sua conversão, depois de ter resistido obstinadamente à Graça e aos convites de seu Deus, o pecador O encontre, consequentemente, inflexível?

Não, responde ainda a fé; em qualquer tempo em que o ímpio volte a Mim, acrescenta o Senhor, esquecerei sua impiedade, Eu a lançarei atrás de Mim para não mais lembrar-me dela, Eu a submergirei no fundo do mar. Assim, quer seja após dez, vinte anos, quer seja durante sua última enfermidade, quer seja em seu último momento, o tempo não importa;  a sinceridade e a abertura de seu arrependimento é que decide tudo. Mesmo que Eu já tenha pronunciado a sentença e dito a este ímpio: “tu morrerás”, se o ímpio fizer penitência, Eu revogarei a minha sentença, o ímpio obterá graça e viverá: viverá, não morrerá [Ez 33,15].

Vós me apresentais agora como oposição a enormidade de vossos crimes, a multidão de vossos sacrilégios, ah! eu vos direi que vosso Deus previu toda a malícia e a multidão de vossas faltas e apesar desse conhecimento infinito de vossa ingratidão, Ele Se comprometeu solenemente a vos perdoar desde o momento que voltardes sinceramente a Ele.

Vós credes na infalibilidade de Suas promessas, por que quereríeis recusar-Lhe a vontade de cumpri-las? A impiedade do ímpio, diz Ele num Profeta, não lhe será imputada em qualquer hora que ele se converta [Ez 33,12].

Com essas palavras sagradas, o libertino moribundo em seus excessos, o malfeitor expirando em seu patíbulo, o velho mais curvado sob o peso de suas iniqüidades do que sob o peso dos anos, numa palavra, o mais famoso criminoso pode renascer à esperança, arrepender-se e morrer como santo.

Com efeito, o que querem dizer esses tribunais de reconciliação abertos a todo o mundo, esses milhares de dignos ministros de Jesus Cristo que esperam os pecadores, tendo Sua Graça nas mãos, prontos a notificá-la para em seguida rejubilar-se com o Céu por tão feliz conquista. É esta sua missão.

Profeta, disse o Pai das misericórdias, se vós não advertirdes os pecadores que eles podem e devem voltar a Mim, que estou pronto a recebê-los, a perdoá-los, e, por falta de vossas advertências, os pecadores perseveram em seus crimes ou desesperam de Seu perdão, Eu descontarei em vós mesmo e vossa perda eterna Me vingará da deles [cf. Ez 33,8].

Assim fala Aquele que não quer a morte do ímpio, mas sua conversão e sua salvação [Ez 33,11].

Mas abramos o Santo Evangelho. Escutemos Jesus Cristo, sigamo-LO em Sua missão divina; só Ele nos narrará o que Ele fez e o que faz ainda todos os dias pelos pecadores.

Escutai em primeiro lugar suas instruções divinas tornadas palpáveis por parábolas que são citadas frequentemente e jamais meditadas suficientemente. Um pastor percebe que lhe falta uma de suas ovelhas, no mesmo momento ele deixa seu rebanho para correr atrás daquela que se extraviou. Ele se fatiga em procurá-la; e, enfim, tendo-a encontrado, apesar do direito de castigar esta infiel, ele a acaricia, perdoa-lhe, poupa-lhe mesmo a fadiga da viagem carregando-a em seus ombros e a leva de volta assim ao redil.

Ora, se no momento em que esse Bom Pastor percebeu que lhe faltava uma de suas ovelhas e a chamou, a tivesse visto reconhecer sua voz, obedecer-lhe, correr para ele, testemunhar um extremo desgosto por se ter afastado, prometer-lhe enfim que para o futuro ela não o deixará jamais, que acréscimo de carinho e de bondade não teria ela experimentado? Eis a parábola e vós a compreendeis sem dúvida; vedes que aqui se trata dos pecadores e da extrema bondade de nosso Deus para nos perdoar.

E apesar disso, quereis sempre persuadir-vos de que vos relacionais com um Deus cruel e inflexível, persistis sempre em crer que esse Pastor que corre atrás de uma ovelha desgarrada é capaz de rejeitá-la logo quando ela volta, vós O acusais de maltratar aquele que Ele acaricia, de fechar a porta do redil àquelas que nele se refugiam, enquanto que Ele aí leva aquelas que O tinham abandonado [Mt 18,12-14]. Que incoerência!

Vós imaginais que esse Divino Pastor destina à morte eterna criaturas queridas pelas quais Ele sacrificou Sua vida e derramou Seu Sangue.

Eu vos falei bastante para reanimar vossa confiança e obter vosso retorno sincero aos vossos deveres religiosos. Só temo uma coisa: é que eu tenha dito muitas coisas para aqueles que não querem voltar para Deus; a esses endurecidos, em lugar de abrir-lhes o seio da misericórdia, talvez teria sido necessário abrir-lhes os abismos infernais, mostrando-lhes os tormentos que os esperam, convertê-los ao assustá-los. Mas o coração insensível ao amor é insensível também ao temor e para ressuscitar uma esperança debilitada, o único caminho é mostrar-lhe Jesus Cristo Crucificado e Moribundo todos os dias. Então está tudo dito, e a esperança apoiando-se sobre a confiança faz o pecador entrar em si mesmo, e humilhar-se. Somente este pensamento o toca e o converte: “Ainda há esperança para mim. Portanto, posso ainda aspirar ao Céu depois de tantas desordens. Deus, meu Pai, quererá ainda perdoar-me e reconhecer-me como Seu filho.”

Ah, sim, meu caro irmão! A perseverança de 99 justos jamais Lhe causará tanta alegria quanto a conversão de um único pecador [cf. Lc 15,7]. Não Lhe recuseis esta doce satisfação.

Amém!

 

(Parte de um Sermão de São Pedro Julião Eymard

feito no 2º Domingo da Quaresma de 1836

Obras Completas / Volume IX)

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