O FIM DO HOMEM

 

 

Qual é meu fim? Por que estou no mundo? Eis, meus irmãos, a questão mais séria, mais importante para o homem, já que ela é decisiva e reguladora necessária de sua vida para o tempo ou para a eternidade.

Ser indiferente a esta questão é ter perdido todo sentimento religioso, todo sentimento de razão; é ter abdicado de sua qualidade e de sua dignidade de homem; é o que o célebre Pascal chamava de uma monstruosidade, uma coisa que não tinha outros termos que a qualificassem a não ser o da loucura, da extravagância.

(Se o homem não tem outro fim senão esta vida, é evidente que então deve concentrar nela todos os seus desejos, procurar aqui e encontrar necessariamente sua felicidade; mas se esta vida não é senão uma vida de preparação, se o homem é criado para uma outra vida, eterna, então seu interesse próprio, sua razão e o amor de sua felicidade, tudo deve dizer-lhe que a vida que passa não é nada, que seus interesses eternos merecem sozinhos e exclusivamente seus cuidados e seus esforços.)

Todo cristão, todo homem que pensa, para ser razoável está, portanto, obrigado a se fazer esta pergunta (e a respondê-la): Qual é meu fim, este fim para o qual devo tender com todas as minhas forças, e com toda a atração do meu ser para o seu centro, este fim que é o complemento de minha natureza, já que ele deve ser a sua perfeição, este fim que deve ser o termo de meus desejos e o centro de minha felicidade; este fim, numa palavra, para o qual Deus me criou e me conserva?

Duas coisas nos revelam nosso fim: a razão e a fé.

O que há de certo aos olhos da razão é que nosso fim não se encontra neste mundo, e por quê? Porque aqui somos apenas peregrinos debaixo de tendas, porque nossa vida é infeliz, os bens não suprimem os males, porque nossa vida é precária, sempre vacilante e inclinada para a beira da sepultura. Ora, onde existe inconstância, morte, sofrimentos, não está o nosso fim, há somente decepção, inquietação, desespero. O que há de certo no julgamento da razão é que o fim do homem não consiste na posse da fortuna, nas honras das dignidades, na celebridade da glória, e por quê? Porque esses favores, essas distinções, esses bens, são somente para um número bem pequeno de favoritos, e a imensa maioria do gênero humano é privada deles, (porque a posse de todos esses bens é tão frágil quanto é inconstante o seu prazer, e estivesse alguém seguro de possuí-los durante sua vida, jamais eles contentariam seu coração.) Ora o fim do homem deve se estender infalivelmente, essencialmente até ao último do espaço humano como a condição primeira, essencial e sagrada de seu ser.

Não, não, não é um pouco de dinheiro a mais ou a menos, algumas vestes bordadas a ouro, alguns títulos que o orgulho humano inventou para distinguir suas vítimas, não, não, não é este o fim do homem. Tudo isso não vale a excelência de sua razão, o amor de seu coração. Tudo não é mais do que a vestimenta de um escravo, de nosso corpo. Nossa alma vale mais do que um pouco de lama, do que um pouco de terra, depois, em última análise, nossa alma sobrevive ao corpo, ela é imortal, e vós o sabeis, o rico, o grande, o rei não levam nada deste mundo.

Um dia, Santo Inácio falou assim a São Francisco Xavier então apaixonado pela glória humana e já célebre em Paris pela sua ciência: “Francisco, o mundo é um traidor que promete tudo e jamais mantém sua palavra. Mas, mesmo que, apesar de tudo, ele se mantivesse fiel à sua palavra, não poderia jamais dar-vos algo que contentasse vosso coração. E supondo que ele conseguisse contentá-lo, quanto tempo duraria esta felicidade? Ela não ultrapassa a vida presente. E no fim, o que vos restará para a eternidade? Já se viu alguma vez um homem rico levar suas riquezas, um grande levar suas dignidades, um rei seu cetro?” A estas palavras tão simples e tão profundamente verdadeiras, Francisco Xavier responde somente por um longo suspiro, a venda cai de seus olhos. Ele reconhece a vaidade daquilo que até então tinha constituído toda sua ambição, e caindo de joelhos, ele exclama: “Ó meu Deus, doravante não servirei senão a Vós” e sua vida provou isto.

Felipe III, rei da Espanha, morreu aos 43 anos e ao morrer, ditou assim suas últimas vontades aos seus súditos: “Meus caros súditos, em minha oração fúnebre, quero que sejam repetidas somente estas palavras: que no momento da morte, de nada serve ter sido rei, senão para sentir mais vivamente a dor de o haver sido.” Depois ele exclamou derramando uma torrente de lágrimas: “Ah! Se eu nunca tivesse sido rei! Se eu tivesse vivido num deserto para aí servir a Deus! Eu me apresentaria hoje com mais confiança ao Seu Tribunal e não me encontraria tão exposto a estar perdido para sempre.” Eis, meus irmãos, como julgamos os bens deste mundo num momento calmo.

Salomão, este rei tão célebre por um reino de paz, de glória e de poder, disse estas memoráveis palavras: “Ao que os olhos me pediam nada recusei, nem privei meu coração de alegria alguma; sabia desfrutar de todo o meu trabalho, e esta foi minha porção em todo meu trabalho. Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho que me custou para realizá-las, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nada havia de proveitoso debaixo do sol.” [Ecl 2,10-11].

É, portanto, um erro, meus irmãos, colocarmos nosso fim nos bens perecíveis, nós, criaturas imortais. É uma loucura pedir-lhes o que eles não poderão jamais nos dar: a paz e o contentamento do coração. É um crime, já que é viciar nossa natureza e privá-la de sua dignidade.

Ó meu Deus, sois Vós Quem ireis instruir-nos sobre nossos destinos; e quem o conhece melhor do que Vós, Vós Nosso Criador, Vós Nossa Verdade, Vós Nossa Vida. Dizei-nos ainda, ó Bom Mestre, que Vós nos tirastes do nada com tanto amor e poder, tão somente para nos conceder a graça de Vos conhecermos, Vós a suprema Verdade, de Vos amarmos, Vós a Bondade e a Beleza infinitas, de Vos servirmos, Vós o melhor dos senhores.

Sim, meus irmãos, Deus, eis nosso fim: Eu sou o alfa e o ômega [Ap 1,8]. Conhecê-LO, amá-LO, servi-LO fielmente neste mundo, eis todo o homem. Vê-LO, amá-LO, possuí-LO eternamente no Céu, eis o seu fim, e é o que se chama realizar sua salvação. A salvação, eis, portanto, nosso fim. Deus não Se propôs outro fim ao nos criar: Eu serei o seu Deus e eles serão meu povo [Ez 37,27]. – Eu serei tua grande recompensa [Gn15,1]. “Vós nos fizestes para Vós, Senhor, exclama Santo Agostinho nos sentimentos de seu reconhecimento, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós”. [Santo Agostinho, Confissões, 1, 1; PL 32,661]

E eis porque, meus irmãos, aquele que não coloca seu fim em Deus passa uma vida triste, cheia de inconstância e de decepções. Ele constrói sobre areia movediça. Seu coração é como o oceano sempre onduloso, sua vontade é como a folha leve que o menor vento agita, é um exilado sem parentes, sem amigos, sem pátria, porque ele está sem Deus, triste estado.

A salvação, eis o fim da Encarnação de Jesus Cristo. Foi por nós e para nossa salvação, como canta a Igreja em seu símbolo da fé (o Credo), que Ele desceu do Céu, que Se encarnou no seio da Virgem Maria e que Se fez Homem. Foi por nós e para nossa salvação que Ele foi crucificado, que Ele morreu e ressuscitou glorioso e triunfante. Foi para nos dirigir no caminho da salvação que Ele estabeleceu a Igreja, para ser nosso Caminho, nossa Verdade e nossa Vida: Quem vos ouve, a Mim ouve [Lc 10,16]. Foi para nos ajudar a alcançar nossa salvação que Ele instituiu sete Sacramentos como as sete veias de Seu Sangue divino, como os canais repletos das graças da Redenção.

(OBRAS COMPLETAS / VOLUME IX)

 

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